Portugal é um dos países com maior consumo de café per capita da Europa. E a dúvida sobre se faz bem ou mal ao coração persiste há décadas. Vamos clarificar.
O café é uma das bebidas mais estudadas da história da nutrição. E durante muito tempo esteve no banco dos réus — associado a palpitações, hipertensão, problemas cardíacos e uma série de males que faziam a bica do pequeno-almoço parecer um acto de imprudência.
A ciência evoluiu. E a resposta, como acontece quase sempre com as questões de saúde genuinamente complexas, é: depende.
De onde vem o medo do café e o coração
A preocupação tem uma base fisiológica real. A cafeína é um estimulante do sistema nervoso central que, a curto prazo, aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial. Para alguém que não bebe café habitualmente, uma dose de cafeína produz um efeito cardiovascular mensurável.
Estudos mais antigos, muitos deles realizados nas décadas de 1970 e 1980, associaram o consumo elevado de café a maior risco cardiovascular. O problema é que esses estudos não controlavam adequadamente para outras variáveis — como o tabagismo, que era muito mais prevalente entre os bebedores de café da época.
Quando as análises foram repetidas com melhor metodologia, o cenário mudou significativamente.
O que a investigação actual diz
Para a maioria das pessoas saudáveis — o café é neutro ou benéfico
Uma revisão sistemática publicada no British Medical Journal em 2017, que analisou mais de 200 estudos sobre café e saúde, chegou a uma conclusão que surpreendeu muitos: o consumo moderado de café — entre duas a quatro chávenas por dia — está associado a menor risco de doença cardiovascular, não a maior.
Os investigadores encontraram uma associação em forma de U — ou seja, o benefício existe no consumo moderado, com os riscos a aparecer apenas em consumos muito elevados, acima de seis a oito chávenas diárias.
O café contém antioxidantes com efeito protector
O café é, surpreendentemente, uma das maiores fontes de antioxidantes na dieta ocidental — não porque seja extraordinariamente rico neles, mas porque é consumido em grande quantidade. Os polifenóis presentes no café têm propriedades anti-inflamatórias que podem contribuir para a saúde cardiovascular a longo prazo.
As palpitações que sentes podem não ser do coração
Muitas pessoas associam o café a palpitações — e de facto a cafeína pode provocar sensação de coração acelerado, especialmente em doses elevadas ou em pessoas mais sensíveis. Mas a maioria destas palpitações são benignas — extrassístoles, que são batimentos cardíacos extra que a maioria das pessoas sente ocasionalmente e que raramente têm significado clínico.
Se as palpitações forem frequentes, prolongadas ou acompanhadas de outros sintomas, a avaliação médica é sempre o caminho certo — independentemente do café.
Quando o café pode ser um problema
Hipertensão não controlada. A cafeína provoca um aumento temporário da pressão arterial — tipicamente de 3 a 4 mmHg. Para pessoas com hipertensão bem controlada, o consumo moderado não parece ser problemático. Para quem tem hipertensão não tratada ou mal controlada, pode ser relevante reduzir o consumo e discutir com o médico.
Arritmias cardíacas diagnosticadas. Algumas formas de arritmia, como a fibrilação auricular, podem ser sensíveis à cafeína em algumas pessoas. Se tens uma arritmia diagnosticada, a questão do café deve ser discutida com o teu cardiologista — a resposta varia de pessoa para pessoa.
Ansiedade e insónia. Não é uma questão cardíaca directa — mas a cafeína agrava a ansiedade e perturba o sono, e ambos têm impacto na saúde cardiovascular a longo prazo. Se tens tendência ansiosa ou dificuldades de sono, o café da tarde ou da noite merece atenção.
Gravidez. Durante a gravidez, a recomendação é limitar a cafeína a menos de 200mg por dia — o equivalente a uma a duas chávenas. Doses mais elevadas estão associadas a maior risco de crescimento fetal reduzido.
Uma nota sobre o café português
A bica portuguesa — expresso concentrado, servido em chávena pequena — tem tipicamente entre 60 a 80mg de cafeína. Um café americano ou um long black pode ter o dobro. Isto significa que dois ou três expressos portugueses por dia estão muito dentro dos limites considerados seguros para a maioria dos adultos saudáveis.
O que pode fazer diferença é o que acompanha o café — o açúcar adicionado, a pastelaria que vai com ele, o hábito de fumar que em Portugal ainda acompanha o café em muitos contextos. Esses factores têm impacto cardiovascular muito mais documentado do que o café em si.
Então — mito ou verdade?
Mito — para a maioria das pessoas.
O consumo moderado de café não faz mal ao coração — e pode até ter um efeito protector. Os riscos aparecem em consumos muito elevados ou em pessoas com condições específicas que devem ser avaliadas individualmente.
Se és saudável, não tens hipertensão não controlada nem arritmia diagnosticada, e bebes dois a três cafés por dia — podes fazê-lo sem culpa.
A bica do pequeno-almoço está ilibada.
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