Dois em cada três portugueses já compram ou vendem artigos em segunda mão online. O que era nicho tornou-se hábito — e há boas razões para isso.
Há poucos anos, comprar em segunda mão tinha um estigma.
Era coisa de quem não tinha dinheiro para comprar novo. Era associado a lojas empoeiradas, a roupa que cheirava a estranho, a objectos sem garantia de qualidade. Quem o fazia não falava muito do assunto.
Hoje o panorama é completamente diferente. Em 2025, dois em cada três portugueses — 67% — já compram artigos em segunda mão online, mais 7 pontos percentuais do que em 2023. 91% dos consumidores prefere vender produtos que já não utiliza em vez de os acumular — e 83% prevê fazê-lo com maior frequência no futuro.
Não é só uma questão económica, embora essa dimensão seja real e importante. É uma mudança de mentalidade — a percepção de que um objecto com história pode ter tanto valor como um objecto novo, e que comprar usado pode ser simultaneamente mais inteligente, mais sustentável e mais interessante.
Porquê segunda mão — as razões que convencem mesmo os mais céticos
A poupança é real e significativa.
O preço é o factor decisivo para 78% dos compradores online em Portugal — acima da média europeia de 68%. E a segunda mão responde directamente a esta sensibilidade. Uma peça de roupa de marca que custa 80 euros nova pode encontrar-se em perfeito estado por 15 a 25 euros. Um electrodoméstico que custa 300 euros novo pode aparecer usado por metade do preço. O potencial de poupança varia por categoria — mas raramente é irrelevante.
A qualidade pode ser superior ao equivalente novo.
Isto surpreende quem ainda não experimentou — mas é uma realidade que os compradores experientes de segunda mão conhecem bem. Uma peça de roupa de qualidade real, usada algumas vezes e bem conservada, supera frequentemente uma peça nova de qualidade inferior ao mesmo preço. O mesmo se aplica a móveis, electrodomésticos, livros, equipamento desportivo.
O impacto ambiental importa — e é mensurável.
Entre 2019 e 2024, o mercado global de revenda de vestuário quase duplicou, passando de 96 mil milhões para 205 mil milhões de dólares — impulsionado pela consciencialização ambiental e pela procura de alternativas sustentáveis. Cada peça de roupa comprada em segunda mão é uma peça que não foi produzida de novo — com toda a água, energia e emissões que essa produção implica.
O objecto único que não encontras em lado nenhum.
As lojas de segunda mão — físicas e online — têm algo que o retalho convencional não tem: imprevisibilidade. Podes encontrar o livro que andavas à procura há meses, o casaco vintage perfeito, a peça de decoração que faz sentido exactamente no sítio que tinhas em mente. Este elemento de descoberta é, para muitos, uma das maiores atracções.
Onde comprar em Portugal — guia prático
Online — as plataformas que funcionam
A Vinted é actualmente a plataforma dominante em Portugal para roupa, acessórios e calçado. A Vinted é a plataforma preferida dos portugueses para compras em segunda mão. A interface é simples, o sistema de avaliações dá segurança, e a protecção ao comprador cobre situações em que o artigo não corresponde à descrição. Para roupa — especialmente de marca — é o primeiro sítio a consultar.
O OLX continua a ser a referência para tudo o resto — móveis, electrodomésticos, electrónica, equipamento de desporto, artigos para casa. É mais generalista, menos curado, mas tem um volume enorme de artigos e permite encontrar coisas que não estão em mais lado nenhum.
A Custojusto funciona de forma semelhante ao OLX e vale a pena consultar em paralelo — especialmente para artigos de maior valor, onde ter mais opções de comparação faz diferença.
O Facebook Marketplace tem crescido significativamente em Portugal, especialmente para móveis e artigos de casa de grandes dimensões — onde a logística de plataformas como o OLX pode ser mais complicada e o contacto directo entre vendedor e comprador facilita a negociação e a recolha.
Físico — onde vale a pena ir
A Feira da Ladra em Lisboa, que acontece às terças e sábados no Campo de Santa Clara, é o mercado de pulgas mais conhecido do país — com décadas de história e uma mistura caótica e fascinante de antiguidades, roupa vintage, livros, discos e objectos de todo o tipo. Requer paciência e tempo — mas é também uma experiência em si mesma.
No Porto, o Mercado de Matosinhos e a Feira de Vandoma têm propostas semelhantes. Em cidades mais pequenas, os mercados municipais ao fim de semana têm frequentemente secções de segunda mão que merecem atenção.
As lojas de roupa em segunda mão — consignação e vintage — multiplicaram-se em Lisboa e no Porto nos últimos anos. No Bairro Alto, na Mouraria e no Príncipe Real em Lisboa; na Rua de Santa Catarina e no Bonfim no Porto — há lojas curadas com selecção de qualidade onde o preço é mais alto do que numa plataforma online mas a experiência de compra é muito diferente.
Onde vender — e como vender bem
Vender em segunda mão tem uma curva de aprendizagem pequena mas real. Quem a ignora demora mais a vender e vende por menos.
Fotografias fazem toda a diferença.

Em plataformas como a Vinted e o OLX, a fotografia é o primeiro filtro. Artigos com fotografias bem iluminadas, em fundo neutro e que mostram claramente o estado do produto vendem muito mais rápido — e a preços mais próximos do pedido. Uma foto tirada de qualquer maneira num quarto desarrumado comunica descuido, mesmo que o produto seja excelente.
Fotografa com luz natural, num fundo simples — uma parede branca, uma superfície neutra. Para roupa, fotografa tanto pendurada como dobrada. Mostra detalhes relevantes — etiquetas, marcas, eventuais imperfeições.

Descreve com honestidade e detalhe.
A descrição honesta não é apenas ética — é estratégica. Compradores que recebem exactamente o que esperavam deixam avaliações positivas. Compradores surpreendidos negativamente pedem devoluções, deixam avaliações negativas e criam problemas que consomem tempo e dinheiro.
Indica o estado real do artigo, as medidas se for roupa, a marca e referência se for relevante, e qualquer imperfeição visível. A transparência vende — e fideliza.
Define um preço realista.
Pesquisa o que artigos semelhantes estão a vender — não o que estão a pedir, mas o que efectivamente venderam. A maioria das plataformas permite ver artigos já vendidos. Este dado é muito mais útil do que os preços pedidos para artigos ainda à venda.
Como regra geral: roupa em bom estado vale entre 20% a 40% do preço original. Artigos com etiqueta ou pouco usados podem chegar a 50% a 60%. Artigos de marca premium conservados podem ultrapassar estes valores — especialmente em plataformas especializadas.
O que não comprar em segunda mão — e porque não
Nem tudo faz sentido comprar usado. Há categorias onde a poupança não compensa o risco.
Capacetes e equipamento de segurança. Um capacete de bicicleta ou mota que sofreu um impacto pode parecer intacto e ter a estrutura comprometida. A segurança deste tipo de equipamento não é verificável visualmente.
Colchões. A higiene e o estado interno não são verificáveis — e um colchão em mau estado pode afectar o sono e a saúde durante anos.
Cosméticos e produtos de higiene. A data de validade, as condições de armazenamento e a integridade das embalagens são impossíveis de garantir.
Electrodomésticos sem garantia de funcionamento. Um electrodoméstico usado que não podes testar antes de comprar é um risco real — especialmente em categorias de maior valor como máquinas de lavar ou frigoríficos.
Uma nota final
A segunda mão não é uma solução para tudo — mas é uma solução para muito mais coisas do que a maioria das pessoas experimenta.
60% dos consumidores já considera o valor de revenda no momento de comprar roupa nova — um aumento de 13 pontos percentuais num ano. A forma como pensamos sobre os objectos está a mudar — de despesa para activo, de posse permanente para algo que circula e tem valor em diferentes mãos.
Começar é simples. Escolhe um artigo que tens em casa e já não usas. Fotografa, descreve, publica. O que ganhas não é só dinheiro — é a descoberta de que o consumo pode funcionar de outra forma.
Já compraste ou vendeste em segunda mão? Qual foi a melhor descoberta que fizeste? Conta-nos nos comentários!
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