Poucas frases são repetidas com tanta convicção por pais, avós e educadores como esta: “não lhe dês açúcar, que depois fica impossível”. Basta um bolo de aniversário, um pacote de gomas ou um refrigerante para que o diagnóstico seja imediato — a criança vai ficar hiperactiva. Mas será que o açúcar é mesmo o culpado?
ler também:“Misturar vinagre e bicarbonato limpa melhor”: solução milagrosa ou espuma inútil?
A ideia parece lógica. As crianças comem algo doce, ficam excitadas, falam mais alto, correm mais, riem mais. O problema é que esta associação ignora um factor essencial: o contexto. O açúcar raramente surge isolado. Aparece em festas, celebrações, aniversários, momentos de estímulo social intenso, ruído, brincadeira e emoções fortes. É natural que a criança fique mais agitada — mesmo que não tivesse comido uma única grama de açúcar.
A ciência tem sido clara neste ponto há décadas. Vários estudos controlados compararam crianças que consumiram açúcar com outras que ingeriram placebos indistinguíveis. O resultado repete-se: não há diferenças significativas no comportamento, atenção ou níveis de actividade. Em muitos casos, quem notou alterações foram os adultos — influenciados pela expectativa de que algo iria acontecer.
Isto não significa que o açúcar seja inofensivo ou que deva ser consumido sem critério. O consumo excessivo está associado a problemas bem conhecidos: cáries dentárias, alterações metabólicas, maior risco de excesso de peso e hábitos alimentares pouco equilibrados. Mas hiperactividade não é um deles.
Outro ponto importante é a confusão frequente entre hiperactividade clínica e comportamento infantil normal. Crianças são, por natureza, activas, curiosas e barulhentas. Correr, saltar e falar muito não é sinal de um problema neurológico — é sinal de desenvolvimento. Atribuir esse comportamento ao açúcar pode desviar a atenção de factores mais relevantes, como sono insuficiente, excesso de estímulos ou falta de rotina.
Curiosamente, quando os pais acreditam que o açúcar vai provocar agitação, tendem a interpretar qualquer comportamento mais exuberante como prova do efeito — um fenómeno conhecido como efeito placebo inverso. A crença molda a observação, não o comportamento da criança.
No Fada do Lar, preferimos separar mitos reconfortantes de explicações reais. O açúcar deve ser consumido com moderação, sim. Mas culpar um bolo de aniversário por algo que faz parte da natureza infantil é, no mínimo, injusto — e cientificamente infundado.
✅ Conclusão rápida
❌ FALSO
O açúcar não provoca hiperactividade nas crianças.
👉 O que realmente explica o comportamento mais agitado:
- contexto social estimulante
- excitação emocional
- expectativas dos adultos
👉 O açúcar deve ser moderado por outras razões, não por causar hiperactividade.
🔬 Base científica e fontes credíveis
- American Academy of Pediatrics — Sugar and hyperactivity in children
- European Food Safety Authority (EFSA) — Dietary sugars and behaviour
- Harvard Health Publishing — Does sugar really make kids hyper?
- Journal of the American Medical Association (JAMA) — Sugar intake and child behavior
- NHS (Reino Unido) — Sugar, diet and children’s behaviour

