Há espectáculos que nos provocam perguntas antes mesmo do primeiro gesto, e Os intransponíveis Alpes, à procura do Currito, de María del Mar Suárez — a coreógrafa andaluza conhecida como La Chachi — é um desses raros casos em que a cena se transforma num terreno acidentado, poético e profundamente humano. Aqui, não se sobe apenas uma montanha: escala-se uma emoção, uma ausência e um enigma.
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A peça conduz-nos numa travessia que oscila entre o trágico e o absurdo, entre o riso nervoso e o desespero que aperta o peito. No centro desta viagem está “Currito”, uma figura evocada, nunca presente, quase fantasmática. É ele o motor, a razão e o abismo. E a montanha — intransponível, simbólica — é a metáfora de tudo aquilo que perseguimos sabendo, lá no fundo, que talvez nunca se alcance: o desejo, a fé, a perda, o amor.
La Chachi constrói um corpo que dança como quem escala: em esforço, em impulso, em tropeção, em teimosia pura. O flamenco, longe do formato clássico, irrompe em espasmos, dobra-se, quebra-se, levanta-se novamente. Mistura-se com linguagens urbanas e contemporâneas — do krump ao voguing — numa forma híbrida que nunca repousa e que parece sempre prestes a desmoronar… para depois renascer com a força de um novo gesto.
A música ao vivo, interpretada por dois músicos e uma cantora, não acompanha apenas: ocupa o centro, respira com a coreografia, empurra o movimento para diante como uma avalanche sonora. O crescendo repetitivo adensa-se até nos deixar numa fronteira indefinida: estamos a assistir a um concerto ou a uma peça de dança? Ou às duas coisas ao mesmo tempo, num território onde a forma deixa de interessar porque a emoção basta?
O resultado é um espectáculo que não se limita a ser visto; é sentido no corpo, nas dúvidas que deixa, nas imagens que ficam. La Chachi assina a ideia, a direcção e a interpretação, com Lola Dolores no canto, Francisco Martín na guitarra e Isaac García na percussão. Um trio que transforma o palco num lugar onde o impossível se tenta, mesmo quando se sabe que não se alcança.
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Os bilhetes variam entre 10 € e 13 €, com descontos aplicáveis, e a experiência — intensa, estranha, profundamente viva — merece cada passo da subida.
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