Onze dias, 241 filmes e uma cidade rendida ao cinema: o IndieLisboa 2026 começa já — e promete não deixar ninguém indiferente
Lisboa prepara-se para voltar a ser o epicentro do cinema independente europeu. A 23.ª edição do IndieLisboa — Festival Internacional de Cinema arranca já no próximo dia 30 de Abril e prolonga-se até 10 de Maio, trazendo consigo uma programação que não só impressiona pelos números, mas também pela diversidade e ousadia das propostas. São 241 filmes, entre curtas e longas-metragens, distribuídos por algumas das salas mais emblemáticas da capital, como o Cinema São Jorge, a Culturgest, a Cinemateca Portuguesa, o Cinema Ideal e o Cinema Fernando Lopes.
A sessão de abertura, marcada para as 19h no São Jorge, dá o tom desta edição com The Loneliest Man in Town, da dupla Tizza Covi e Rainer Frimmel. O filme acompanha um músico de blues em risco de perder tudo — desde a sua casa até à colecção de discos e livros que define a sua identidade. Um retrato íntimo e melancólico que dialoga com o espírito do próprio festival: olhar para o mundo através de histórias marginais, humanas e inesperadas.
No encerramento, a 10 de Maio, a Culturgest recebe The History of Concrete, a estreia em longas-metragens de John Wilson, conhecido pela série documental How To with John Wilson. A premissa é, por si só, um manifesto do ADN do IndieLisboa: começa num workshop sobre escrita de comédias românticas e acaba a explorar o universo do betão. Surreal? Talvez. Mas é precisamente essa liberdade criativa que faz deste festival uma referência internacional.
A Competição Nacional surge, uma vez mais, como um dos pilares centrais do evento. Com 29 filmes — incluindo um número recorde de 21 curtas-metragens — esta secção destaca o melhor da produção portuguesa contemporânea. Entre os nomes mais aguardados está João Nicolau, com A Providência e a Guitarra, um filme que mistura tempos e narrativas com um toque de humor e onde surge Salvador Sobral no elenco. Já Susana de Sousa Dias apresenta Fordlândia Panacea, uma reflexão sobre o ambicioso (e falhado) projecto industrial da Ford na Amazónia.
Há também espaço para a memória e a homenagem. A edição deste ano recorda Patrícia Saramago, uma figura essencial da montagem no cinema português, falecida no ano passado, com a exibição da sua primeira obra, Dois e Um Gato. Um gesto simbólico que reforça o papel do IndieLisboa não apenas como palco de novas vozes, mas também como guardião da história cinematográfica nacional.
Outro dos grandes destaques é a secção IndieMusic, que volta a cruzar cinema e música em propostas que vão muito além do formato convencional. Entre os títulos mais aguardados está Sun Ra: Do the Impossible, de Christine Turner, que mergulha na vida e legado do icónico músico de free jazz através de imagens de arquivo e testemunhos da sua Arkestra. Mas é impossível ignorar o impacto de Quem tem medo de Zurita de Oliveira?, documentário de Francisca Marvão que resgata a história da primeira mulher portuguesa a escrever, cantar e gravar rock — uma narrativa que levanta questões pertinentes sobre a invisibilidade feminina na história cultural do país.
E como já é tradição, o IndieLisboa não se limita às salas de cinema. A cidade transforma-se num verdadeiro palco de celebração cultural. O Cinema na Piscina regressa nos dias 2 e 3 de Maio à Piscina Municipal da Penha de França, com sessões para famílias durante o dia e clássicos para adultos à noite. Para quem prefere prolongar a experiência para lá do ecrã, o IndieByNight leva a festa até aos bares oficiais — Casa do Comum e Damas — onde o cinema se mistura com música e convívio.
Para os mais resistentes, há ainda a já mítica Maratona Boca do Inferno, no Cinema Ideal: seis horas seguidas de cinema para quem acredita que dormir é opcional quando há boas histórias para descobrir.
Com uma programação ambiciosa, nomes consagrados e novas vozes promissoras, o IndieLisboa 2026 volta a afirmar-se como muito mais do que um festival — é um convite a olhar o mundo de outra forma. Para quem está em Lisboa nos próximos dias, a pergunta não é “o que fazer?”, mas sim “por onde começar?”.
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