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Novas Palavras, Velhos Costumes: Como o Inglês e o Português Se Reinventam Todos os Dias

As línguas não são estátuas em pedra, são organismos vivos — e, tal como plantas bem regadas (ou sapatos já moldados ao pé), vão-se adaptando às modas, às tecnologias e aos memes do dia-a-dia. Prova disso é o que aconteceu recentemente nos Estados Unidos: o famoso dicionário Merriam-Webster anunciou uma revisão monumental, acrescentando mais de 5 000 novas palavras à sua edição Collegiate.

Entre as novidades estão expressões que já se tornaram parte do vocabulário digital e cultural, como “beast mode”(aquele modo ultra-competitivo em que se entra para vencer a todo o custo), “dad bod” (o corpo ligeiramente rechonchudo e nada musculado de muitos pais), “dumbphone” (o telemóvel básico, sem aplicações nem internet) e “rizz” (charme romântico). Há ainda pérolas técnicas, como “teraflop”, unidade de medida que traduz a velocidade de cálculo dos computadores mais potentes.

O curioso é que o processo de seleção não é nada arbitrário: as palavras só entram no dicionário depois de circularem de forma consistente em jornais, livros, debates académicos e redes sociais. O Merriam-Webster até retirou algumas entradas antigas para abrir espaço, provando que a língua não é um só depósito, mas uma casa em constante remodelação.

O português também tem as suas aventuras linguísticas

Se no inglês os neologismos já saltam para a capa dos jornais, em português o caminho é mais discreto, mas igualmente vibrante. Por cá não há anúncios tão mediáticos, mas o mecanismo é semelhante: as palavras só se tornam “oficiais” quando já estão a ser usadas com frequência e consistência.

No Brasil, por exemplo, a Academia Brasileira de Letras tem discutido termos como “disania” (aquela preguiça avassaladora de sair da cama), “terrir” (entre o terror e o riso), “microssono” (dormir involuntariamente por alguns segundos), ou ainda “retrofitagem”, ligado à modernização sustentável de edifícios. São palavras que refletem novas realidades, desde o cansaço urbano até às soluções digitais como a “tokenização”.

Em Portugal, a discussão anda mais dispersa, mas não menos interessante. Expressões como “streaming”“ghosting”“viralizar” ou “cancelar” já circulam sem cerimónia, mesmo que ainda causem arrepios a alguns puristas. Termos técnicos da informática e da biotecnologia começam a aparecer em relatórios, notícias e até manuais escolares. E, claro, os dicionários online — como o Priberam ou o da Porto Editora — são hoje o campo de testes antes de qualquer edição impressa lhes dar o selo definitivo.

Afinal, porque é que isto importa?

Além de nos fazer parecer cultos no café (quem não gostaria de atirar um “adoro o cheiro a petrichor” num dia de chuva?), conhecer estas palavras é também acompanhar as mudanças da sociedade. Falar de “tokenização” ou “pejotização” mostra que estamos atentos à economia digital e às novas relações de trabalho. Usar “disania” pode ser a forma científica de confessar que odiamos segundas-feiras.

Mais do que moda passageira, os neologismos são sinais de vitalidade. Cada nova entrada é um lembrete de que a língua não é uma peça de museu, mas uma árvore em crescimento: cria ramos novos, deixa cair folhas velhas e continua a florescer. No fundo, aprender estas palavras não é só enriquecer o vocabulário — é perceber melhor o tempo em que vivemos.

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